Filosofia na Escola Secundária Jaime Moniz - Funchal

06
Out 08

 

 


    Cada vez se fala mais de energia nuclear, por todo o lado e também aqui. O nuclear, que é uma tecnologia muito segura, tem uma grande vantagem relativamente às centrais térmicas: não emite o dióxido carbono que causa o efeito estufa. Poderá haver razões, económicas ou outras, para não construirmos uma central nuclear, mas o pior que poderíamos fazer era dizer à partida que não. É necessário discutir até chegar a uma resposta bem informada. As centrais nucleares funcionam bem em muitos países do mundo. E nós importamos energia de Espanha e França, que é, em larga medida, nuclear.

    Eu sei que me podem falar de Chernobyl. De facto, Chernobyl foi um acidente perigoso e lamentável. Mas não morreram milhões de pessoas... O governo ucraniano exagerou com o objectivo de ser compensado. Dizer-se que, por causa de Chernobyl, não devemos ter energia nuclear é a mesma coisa que dizer que, por causa de um erro clínico, não devemos ir a um hospital. Na questão do nuclear o perigo maior não é o de um acidente (que, apesar de raro, pode também ocorrer numa barragem): é o dos resíduos radioactivos, porque ainda não há um meio que seja absolutamente eficaz para os tratar. É um mau legado para o futuro, porque, embora esse lixo seja enterrado em lugares remotos e a grande profundidade, continuará a emitir radioactividade por longos anos.

    Há um medo do público relativamente ao nuclear, talvez por a radiação ser invisível. Contudo, as pessoas que moram em zonas graníticas estão sujeitas permanentemente a essa radiação. Temos medo do que não devíamos ter e não temos medo do que devíamos ter. Há coisas de que devíamos ter mais medo porque são bem mais perigosas, como, por exemplo, a circulação automóvel.

   Agora há muitos investimentos em centrais eólicas e solares. Muito bem. São tecnologias em desenvolvimento, mas não se prevê que, a curto prazo, proporcionem uma solução barata às nossas enormes necessidades energéticas. Temos de investir nas energias alternativas, mas não é viável desistir das centrais convencionais, sejam elas térmicas ou nucleares.

CARLOS FIOLHAIS

publicado por Horacio@Freitas às 12:10


 

 
Crónica de J. Norberto Pires, publicada no "Jornal de Notícias" de 5 de Outubro:

 
Vivemos depressa. Muito depressa. E não sabemos bem porquê. Tem de ser; é assim a vida, justificamos. Não há tempo para nada, é preciso despachar mecanicamente, automaticamente, aquilo que dizemos que fazemos. Reflectir não é grande ideia. Faz perder tempo, e isso é coisa que não temos. O melhor é andar depressa, muito depressa, pelo menos mais depressa que os outros. Mas, como o Coelho Branco da Alice, parecemos sempre atrasados para alguma coisa. Não sabemos bem é para o quê. E parece que isso não nos incomoda.

Nesta lógica, investir no “Magalhães” é uma boa ideia. As crianças habituam-se rápido a viver depressa, sem se deslocar, e sem precisar de contacto físico. A Internet resolve. Está tudo, mas mesmo tudo, à distância de umas teclas. Até pesquisar, estudar, é tão simples como “clique”, “Google”, “palavra-chave”, “copy and paste”, e pronto. E, como dizia o Calvin, podemos fazer um brilharete com umas capinhas de plástico. Muito profissional.

Só que essa é uma escola sem futuro. E é disso que falamos quando falamos de livros e de leitura. A escola com futuro coloca o foco nos livros, na aprendizagem com reflexão, que é um método que a leitura incentiva e desenvolve. Com o tempo que as coisas naturalmente levam, com detalhes, ao pormenor. Uma educação feita assim é uma vela impressionante que nos permite navegar pela vida fora com a confiança de quem não desiste.

Como o velho Santiago, que não pescava um simples peixe há 84 dias, mas tinha nos magníficos olhos azuis o brilho de querer apanhar o maior peixe da sua vida. Mesmo muito cansado, com um barco a cair de podre, e a vela remendada. E conseguiu, ganhando de novo o respeito de todos. E nós viajamos a Cuba com ele.

Ou ainda como o Principezinho que um dia saiu do seu pequeno planeta cheio de flores e vulcões extintos, para viajar por sete planetas e descobrir que afinal mais importante do que navegar, ver e desvendar novas realidades, é importante descobrir o valor das coisas e das pessoas, e que isso exige tempo. Tempo para ler.

Evitando ser como a Alice, que não sabia para onde ir; se haveria de virar à esquerda, ou à direita, ou pura e simplesmente seguir em frente. Assim, como muito bem notou o Gato, não importa que direcção tomar se não se faz a mínima ideia para onde se quer ir. Chega-se sempre a qualquer lado, seja qual for a direcção escolhida. Depressa ou devagar, não importa. Existe sempre um destino, seja ele o do Gato Chapeleiro ou o da Lebre Marciana.

- Mas eu não quero ir para o meio de gente maluca, dizia a Alice.

Vai uma aposta que com o andar das coisas não podes evitar isso?

J. Norberto Pires 

 

in De Rerum Natura

publicado por Horacio@Freitas às 12:06

 
___________________________________
 
A ti, aluno.

A. Como tirar apontamentos?
"A tinta mais pálida é melhor que a memória mais fiel" (Ditado Chinês)
" As palavras voam, os escritos permanecem" (Prov. Latino)
1. Tirar apontamentos para quê?

  

publicado por Horacio@Freitas às 10:51

20
Fev 08
 
Biodiesel – Uma alternativa
 
Ao longo da história, as necessidades das sociedades no consumo de energia têm vindo a aumentar, particularmente após a Revolução Industrial. O consumo crescente de energia tem sido saciado pela utilização do carvão, do petróleo e, mais recentemente, do gás natural. Estes combustíveis fósseis são recursos naturais não renováveis, devido à sua taxa de formação ser muito lenta em relação à escala temporal do homem.
2008 HF
 
publicado por Horacio@Freitas às 16:06

08
Jan 08
_______________________
 
Locais abrangidos, excepções e coimas
 
A Lei 37/2007 de 14-8, aprova normas para a protecção dos cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e medidas de redução da procura relacionadas com a dependência e a cessação do seu consumo. Este diploma estabelece a proibição de fumar em:
 (...)
4. Nos estabelecimentos de ensino, independentemente da idade dos alunos e do grau de escolaridade, incluindo salas de aula, de estudo, de professores e de reuniões, bibliotecas, ginásios, átrios e corredores, bares, restaurantes, cantinas, refeitórios e espaços de recreio;
(...)
Nota: É admitido fumar nas áreas ao ar livre (Sistema de ensino superior).
Nota: Nos estabelecimentos que integrem o sistema do ensino superior, pode ser permitido fumar em áreas expressamente previstas para o efeito, desde que: Estejam devidamente sinalizadas (Afixação de dísticos em locais visíveis); sejam separadas fisicamente das restantes instalações, ou disponham de dispositivo de ventilação (ou qualquer outro desde que autónomo) que evite que o fumo se espalhe às áreas contíguas; seja garantida a ventilação directa para o exterior através de sistema de extracção de ar que proteja dos efeitos do fumo os trabalhadores e os clientes não fumadores.
 (...)
RESPONSABILIDADE
O cumprimento do disposto neste diploma deve ser assegurado pelas entidades públicas e privadas que tenham a seu cargo os locais a que se refere esta lei.
Sempre que se verifiquem infracções os responsáveis pelos locais devem determinar aos fumadores que se abstenham de fumar e, caso estes não cumpram, chamar as autoridades administrativas ou policiais, as quais devem lavrar o respectivo auto de notícia.
Todos os utentes dos locais onde esteja prevista a proibição de fumar, têm o direito de exigir o cumprimento da exigência, podendo apresentar queixa por escrito, nomeadamente, através do livro de reclamações disponível no estabelecimento em causa.
 
 
4. REGIME SANCIONATÓRIO
a)- Para o fumador que fume nos locais onde se encontre determinada a proibição de fumar.
Coima: de 50,00 € a 750,00 €.
 
b)- Sempre que se verifiquem infracções os responsáveis pelos locais devem determinar aos fumadores que se abstenham de fumar e, caso estes não cumpram, chamar as autoridades administrativas ou policiais, as quais devem lavrar o respectivo auto de notícia.
Coima: de 50,00 € a 1000,00 €.
c)- Para os responsáveis das entidades/estabelecimentos que não cumpram com os requisitos previstos e as condições estabelecidas na separação de espaços para fumadores e não fumadores e respectiva sinalização.
Coima: de 2500,00 € a 10 000,00 €.
 ENTRADA EM VIGOR: 01.01.2008
publicado por Horacio@Freitas às 20:59

24
Nov 07

Filosofia 10.º ano

a priori / a posteriori Conhecemos algo a priori quando o conhecemos sem recorrer à experiência. Por exemplo, para saber que a adição de 502 com 12 dá 514 não precisamos de recorrer à experiência. Mas para saber que a neve é branca temos de recorrer à experiência. Conhecemos algo a posteriori quando o conhecemos recorrendo à experiência.

abstracto Uma entidade sem localização espácio-temporal. "Abstracto" não quer dizer "vago e difícil de compreender".

publicado por Horacio@Freitas às 12:08

18
Nov 07

 

Uma das disciplinas tradicionais da filosofia, que aborda um conjunto de problemas e conceitos por vezes muito diferentes entre si. A estética começou por ser sobretudo uma TEORIA DO BELO, depois passou a ser entendida como TEORIA DO GOSTO e nos nossos dias é predominantemente identificada com a FILOSOFIA DA ARTE.

 

publicado por Horacio@Freitas às 20:36

 

______________________________________________________________________

 
Assinala com um X em cima de cada número de cada frase a situação que melhor achares adequada ao teu caso.
 
A- AQUISIÇÃO DE CONHECIMENTOS
1. Não adquiri qualquer conhecimento novo.
2. Adquiri alguns conhecimentos que não sei utilizar.
© 2007 HF
publicado por Horacio@Freitas às 19:22

 
Aqui apresentamos sugestões de testes para a unidade 1 e 2 - Iniciação à actividade filosófica e Acção Humana - Análise e Compreensão do Agir
 
Teste 1 
 
Grupo I
 
 
Assinale à frente de cada uma das seguintes frases o seu valor de verdade (utilize apenas V ou F):
 

 

1.      O facto de as nossas ideias precisarem de ser testadas pelos outros implica que a filosofia seja uma actividade dialogante. ___

 
2.      Se não conseguimos definir explicitamente «filosofia»,

 

 

 

 

 

 
publicado por Horacio@Freitas às 18:39

14
Nov 07
1. A filosofia é difícil - É falso que se fale da filosofia como uma disciplina difícil. Ela é tão difícil quanto outra disciplina qualquer. Há, certamente, disciplinas mais difíceis e outras mais fáceis. A dificuldade não ocupa um lugar de destaque mais na filosofia do que na física, biologia ou na matemática.
 

2. A filosofia não serve para nada - Bem, isto só seria verdade se nos mentissem acerca da filosofia.

publicado por Horacio@Freitas às 14:37

25
Set 07

A equipa da Filomoniz deseja a toda a comunidade escolar um bom ano lectivo.

Sabendo dos novos desafios lançados, nunca é demais seguirmos a ambição da Direcção Executiva desta escola, em empreender novos paradigmas de gestão e administração de todos os recursos disponíveis.

Para bem de todos, saibamos aproveitar e rentabilizar todos os meios, pelos quais possamos ser uma mais valia em prol do sucesso escolar e profissional de todos os intervenientes no processo educativo.

publicado por Horacio@Freitas às 10:35

14
Jun 07

Programa de acesso a computadores e banda larga

 

 
"Os computadores estarão disponíveis imediatamente para os formandos inscritos na iniciativa Novas Oportunidades e, em Setembro, para professores e alunos."

Veja o vídeo da comunicação do Primeiro Ministro a 31 de Maio de 2007:

http://www.eescola.net/conteudoParcial.aspx?c=24

No âmbito acção "e.oportunidades", destinada aos adultos nas Novas Oportunidades, desde segunda-feira todos os trabalhadores em formação inscritos num Centro Novas oportunidades terão direito, mediante o pagamento de uma quantia de entrada de 150 € e pagando 17,5 € por mês durante um ano, a um computador portátil, ao acesso gratuito à Internet em banda larga durante um ano e a uma linha telefónica.

 

A iniciativa para a generalização do acesso a computadores pessoais e à banda larga concretiza-se assim para os adultos nas Novas Oportunidades, seguindo-se as acções "e.escola" e "e.professores", dirigidas aos alunos do 10.º ano e aos professores do Ensino Básico e Secundário.

Esta iniciativa para a generalização do acesso a computadores pessoais e à banda larga tem como objectivo o financiamento das acções que promovam o acesso à sociedade de informação, garantindo a estudantes, a professores e a trabalhadores em formação o acesso a um computador e à Internet de banda larga com preços significativamente reduzidos, por forma a melhorar a acessibilidade, salienta a tutela.

Na primeira fase, destinada a alunos matriculados no 10.º ano em 2007, o pacote inclui um computador portátil com acesso à banda larga, sendo definidos três escalões, nomeadamente: 1.º escalão - Acção Social Escolar (5 euros); 2.º escalão - Agregados com baixo rendimento (15 euros); 3.º escalão (oferta de 150 euros para o computador e mensalidades de 17,5 € durante 3 anos).

 

Para os professores, o programa contempla uma entrada de 150 euros para a aquisição do computador portátil e mensalidade de 17,5 € nos operadores aderentes. A ficha de inscrição encontra-se também disponível on-line, requerendo um código de validação, a obter no Centro na escola onde o professor lecciona.

No total, o programa visa garantir a 240 000 mil estudantes, professores e trabalhadores em formação computadores e acesso à internet de banda larga a preços muito reduzidos, no âmbito do Plano Tecnológico.

Os computadores, segundo informa a tutela, estarão disponíveis imediatamente para os formandos inscritos na iniciativa Novas Oportunidades e, em Setembro, para professores e alunos.

publicado por Horacio@Freitas às 13:41

10
Mai 07

Um historiador grego conta-nos que o rei Damocles quis um dia mostrar a vários dos seus invejosos conselheiros como vivia um rei. Convidou-os para o banquete da corte: manjares esplêndidos, vinhos e perfumes. A vida de rei tornava-se-lhes apetecível. Mas a dado momento o rei convidou-os a levantar os olhos. E o que é que viram? Uma espada afiada pendia sobre as suas cabeças e baloiçava ameaçadora. Os convidados deixaram de comer e tremeram. Nesse momento compreenderam como é importante a vida. 

Essa mesma sensação a experimentam os que, passados os sessenta anos, são internados num qualquer hospital com uma doença grave. Há dúvidas, desconfianças e temores porque outra "espada" está dependurada sobre as suas cabeceiras de enfermos: a eutanásia.

Etimologicamente, a palavra eutanásia significava na antiguidade uma "morte doce", sem sofrimentos atrozes. Hoje em dia referimo-nos antes à intervenção da medicina destinada a atenuar as dores da doença e da agonia, às vezes com o risco de suprimir prematuramente a vida. Fala-se em "causar a morte por piedade" ou do direito a uma "morte digna".

Direito a uma morte digna? Não é uma contradição? Como pode ser digna a morte se não o é primeiro e principalmente a vida? Por outro lado, quem é que determina os graus de dignidade na vida? Há alguma escala, algum termómetro ou balança que pese e controle os gramas de qualidade?

A eutanásia é uma derrota radical da pessoa. Pois trata-se de alguém que não encontra o sentido para a existência e pede ajuda para deixar de viver. A decisão de deixar de existir (chamemo-lo pelos seus nomes: assassinato ou suicídio), é uma recusa da vida. E a pessoa, optando e escolhendo o mal, perde a sua dignidade. É uma derrota total.

Qual é o verdadeiro problema ético da eutanásia? É que tendo um fim bom - eliminar a dor - utiliza e serve-se de um meio mau enquanto tal: a morte directa ou indirectamente provocada. E o fim não justifica os meios. Aqui o fim é bom, mas os meios são nefastos: uma injecção, evitar a cura, dar morfina...(...)

Marcelino de Andrés e Juan Pablo Ledesma

Esta questão está muito bem explorada no filme de Alejandro Amenábar, MAR ADENTRO, onde Ramón (Javier Bardem) está preso numa cama há quase 30 anos. A sua única janela para o mundo é a do seu quarto, perto do mar onde viveu e sofreu muitos anos até um acidente o ter deixado tetraplégico. Desde então, Ramón luta pelo direito à eutanásia. Duas mulheres vão mudar a sua vida: uma, advogada, apoia a sua luta; a outra, uma vizinha, tenta convencê-lo de que vale a pena viver.

Horácio de Freitas

publicado por Horacio@Freitas às 15:36

03
Mai 07

A moral

"Vale mais ser Sócrates insatisfeito que um porco satisfeito; vale mais ser Sócrates insatisfeito que um imbecil satisfeito. E se o imbecil ou o porco têm uma opinião diferente, é porque só conhecem um lado da questão: o seu. A outra parte, para fazer a comparação, conhece os dois lados."                                                                                              JOHN STUART MILL

publicado por Horacio@Freitas às 16:05

27
Abr 07
 
A teoria ética de Kant oferece-nos um princípio da moral que deve poder ser aplicado a todas as questões morais. Kant enuncia-o de diferentes maneiras com o objectivo de esclarecer as suas implicações. Partiremos de um caso simples, de senso comum, para esclarecer essas diferentes formulações:
Silva reparou que uma pessoa que saía da sua pequena loja deixou cair uma nota de 50 €. Apanhou-a e … que fez?
Avaliemos três decisões possíveis de Silva
a) Ficou com os 50 €.
b) Devolveu os 50 € para ficar bem visto e ganhar reputação de honesto.
c) Devolveu os 50 € pelo simples facto de pertencerem ao cliente.
 
O princípio do desinteresse
 
A acção a) é claramente imoral. Silva ficou com os 50 € por causa do seu interesse. Quanto à acção b), o senso comum diria que é hipócrita ou interesseira, por Silva devolver os 50 € apenas por isso ser do seu interesse. De facto, o princípio da decisão em b) foi o mesmo que em a) ― o interesse. Pôr o seu interesse acima de tudo, como princípio das acções, é imoral. Assim, só a acção c) é moralmente correcta, já que Silva ultrapassou os seus interesses e agiu de forma desinteressada.
O nosso juízo sobre cada uma das possíveis decisões de Silva foi guiado pelo princípio do desinteresse:
"Age desinteressadamente."
A teoria de Kant não impede que a pessoa satisfaça os seus interesses ― afinal também era do interesse de Silva decidir o que fazer com os 50 € e, apesar de não ter sido esse o motivo da acção c), também ganhou a consideração do cliente. O acto deve ser desinteressado mas se, para além disso, satisfizer interesses, tanto melhor para o agente; se contrariar interesses, paciência.
 
O princípio da imparcialidade
 
Podemos enunciar o princípio do desinteresse de outra maneira:
"Decide com imparcialidade."
Aprovamos moralmente as decisões e as acções quando o sujeito, como no caso c), decide como um juiz imparcial. Nos casos a) e b) Silva permitiu que os seus interesses lhe roubassem a imparcialidade.
É provável que Kant, neste aspecto, se afaste um pouco do senso comum. O senso comum pode pensar que "imparcialidade" será considerar igualmente "cada um dos interesses envolvidos" ou, então, ajuizar sobre cada caso atendendo ao "interesse de todos". Mas os "interesses das partes envolvidas" podem ser igualmente imorais. Quanto ao "interesse de todos" pode nem existir (afinal é típico os interesses estarem em conflito…) e, se existir, será, como todos os interesses, contingente, caprichoso como a humanidade, e a moral não pode estar sujeita a caprichos. Imparcialidade para Kant significa decidir independentemente de quaisquer interesses. De facto, Kant pensava, em parte de acordo com o senso comum, que o progresso moral também ajuda à felicidade e aos interesses mais dignos das pessoas. Mas ele sabe que a harmonia entre a moral e a felicidade não é certa e que se a acção moral gerar felicidade será por acréscimo ou efeito secundário.
 
O princípio do dever
 
Se a pessoa não deve agir por interesse, então deve agir por obrigação, por dever. A acção a) foi em tudo contrária ao dever. A acção b) está em conformidade com o dever,porque Silva fez o que deveria ter feito, mas foi feita por interesse e não por dever. Só a acção c), a única a ter toda a nossa aprovação moral, foi feita por dever. Assim, o princípio da moralidade pode ser enunciado deste modo:
"Age apenas por dever e não segundo quaisquer interesses, motivos ou fins."
Devemos ter em mente que falamos de decisões e acções morais. Se um papel inútil na minha secretária me incomodar, é do meu interesse deitá-lo para a reciclagem e, ao fazê-lo, não estou a violar o princípio dos deveres; mas se atirar o papel para o quintal do vizinho, deixo de cumprir o dever de respeitar as pessoas…
 
Os deveres morais e as convenções sociais
 
Os princípios do desinteresse, da imparcialidade e do dever dizem a mesma coisa e têm as mesmas implicações. Isto permite esclarecer o que são deveres morais:
O dever é uma regra estipulada por uma razão desinteressada, imparcial.
Assim, podemos evitar o erro, bastante difundido, de supor que os deveres morais são criações ou convenções sociais. Dois argumentos contribuem para este erro. O primeiro parte do facto de alguns dos "deveres morais" de uma sociedade serem diferentes dos de outras, para concluir, erradamente, que todos os deveres são convenções sociais. O segundo argumento parte do facto de muitas vezes cumprirmos os deveres contrariados, como se fossemos obrigados por uma autoridade externa, para concluir que não podem ter origem em nós mas sim numa autoridade externa.
Ora, a teoria kantiana permite distinguir os deveres morais das regras ditadas por quaisquer autoridades exteriores ao agente. O indivíduo tem na sua razão o critério dos deveres: pensando desinteressada e imparcialmente ele sabe o que é o dever. O conflito entre o dever, que é a ordem que damos a nós mesmos ("Sê honesto!" - ordenou Silva a si mesmo), e os interesses que nos afastam do dever ("Mas os 50 € davam-me jeito…" ― hesitou Silva), explica porque o dever parece ter uma origem numa autoridade exterior que nos contraria.
 
O princípio da universalidade
 
A teoria moral de Kant concilia a ideia de que os deveres morais são criações dos indivíduos e a ideia de que a moral é universal, comum a todos. Esta ideia pode surpreender-nos: não é verdade que "cada cabeça, cada sentença"?
A acção correcta é decidida pelo indivíduo quando adopta uma perspectiva universal. Como? Abstraindo dos seus interesses, a pessoa pensará como qualquer outra que também faça abstracção dos seus interesses adoptando, portanto, uma perspectiva universal.
Regressa ao exemplo dado e verifica que qualquer pessoa que abstrai dos seus interesses e pensa imparcialmente faz o mesmo: é honesta e devolve os 50 €. Aplica a mesma ideia a deveres morais comuns como "Cumpre as promessas", "Paga o que deves", "Sê leal", "Não roubes" e verifica, com Kant, que só o interesse e a parcialidade do agente podem levar à violação de tais regras ou deveres morais. Eliminada a parcialidade, pensamos segundo uma perspectiva universal e aprovamo-los. Kant exprimiu esta ideia numa fórmula conhecida por princípio da universalizabilidade:
"Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal."
Uma máxima é uma regra que deve valer para certos tipos de acção e será moral ou imoral consoante esteja ou não de acordo com o princípio moral, que é uma regra que deve valer para todas as acções. A máxima da acção a) poderia enunciar-se assim "Se isso servir os teus interesses, não devolvas dinheiro ao seu dono." Poderia Silva querer que ela fosse universalmente acatada? Não porque a obediência universal a tal regra criaria um estado de coisas terrível em que mesmo os seus interesses acabariam por ser lesados… Tenta transformar outras violações dos deveres em máximas e pergunta se podes querer que todos as cumpram. Pode o ladrão querer que todos roubem quando a oportunidade surge? Podes querer que todos façam promessas sem a intenção de cumprir?
 
O princípio da autonomia
 
Se juntares agora o princípio da universalidade e o esclarecimento da origem dos deveres, compreenderás a ideia surpreendente de Kant de que nas decisões morais nós somos legisladores criando regras válidas para todos os seres racionais.
Esta ideia também pode parecer estranha porque nos parece que os deveres não estiveram à nossa espera para serem criados. Pensamos que são as tradições que constituem listas de deveres apoiadas em sistemas de punições e recompensas. Mas, aceitar esta teoria implica afirmar que a acção c) é impossível porque, nesse caso, Silva só poderia agir por causa do seu interesse em evitar punições ou de ser recompensado e, em consequência, a nossa aprovação moral de c) não teria sentido. Se aceitarmos os princípios já expostos, conclui Kant, aceitamos que em cada juízo ou decisão moral, o sujeito determina o dever. O facto de esses deveres coincidirem com alguns dos deveres tradicionais explica-se pela universalidade da razão. Kant sublinhou esta ideia de autonomia do sujeito em outras fórmulas do princípio moral:
"Age como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza."
"Age… de tal maneira que a vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma ao mesmo tempo como legisladora universal."
A fórmula da universalizabilidade ainda poderia sugerir que quando decide moralmente, o sujeito escolhe entre máximas que ele não criou mas que já estão disponíveis. A novidade mais notória destas fórmulas está no facto de acentuarem a autonomia do sujeito: o sujeito deve obedecer apenas a regras que criou, ao mesmo tempo, para si mesmo e para todos os seres racionais.
 
O princípio do respeito pela pessoa
 
Perguntemos como é que, em cada um dos casos a), b) e c), as pessoas são tratadas.
Em a), Silva usou o outro como meio, como se a outra pessoa fosse uma coisa ou instrumento, para o aumento directo da sua fortuna. Em b), Silva usou a outra pessoa como meio de marketing e propaganda. Nestes dois casos, ao mesmo tempo que usou a outra pessoa apenas como meio, Silva usou-se como meio, abdicando da sua autonomia para favorecer impulsos e interesses que o escravizam. Que quer dizer " usar-se como meio"? Silva é uma pessoa, um ser autónomo. O que constitui esta pessoalidade ou autonomia é a capacidade de pensar e decidir por si. Mas nos casos a) e b) usou estas capacidades para servir fins ditados pelo interesse. Usar-se como meio é usar a sua autonomia para a perder.
Em c), Silva não tratou a outra pessoa como meio, tratou-a como sendo um fim. Devemos esclarecer esta ideia.
Se a devolução dos 50€ não visou servir qualquer interesse, então para quê fazê-lo? Qual é a sua finalidade? A finalidade, já vimos, foi a de cumprir o dever pelo dever. Mas isso, também já vimos, é, ao mesmo tempo, definir a única legislação adequada a qualquer a pessoa, ou seja, a todo o ser racional, capaz de ultrapassar interesses para pensar e decidir por si. Assim, cumprindo o dever que deu a si mesmo, Silva respeita todos os seres racionais, incluindo, claro, tanto o próprio Silva como pessoa do seu cliente. O mesmo seria dizer que respeitando a pessoa do seu cliente, Silva respeita-se e respeita todos os seres racionais, tomando-os como fins da sua acção.
Kant sintetizou o seu pensamento em outra fórmula
"Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre e simultaneamente como fim e nunca apenas como meio."
Nota que a fórmula não proíbe as pessoas de serem meios umas para as outras, porque se o proibisse, proibiria qualquer prestação de serviços. A lei moral não proíbe Silva de usar os seus clientes para prosperar, mas se Silva enganar nos preços e não devolver dinheiro esquecido pelos clientes, está a tratá-los apenas como meios, instrumentos ou objectos.                                                            Júlio Sameiro, 2006
publicado por Horacio@Freitas às 12:14

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